quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O Choro dura uma noite.

 






Van Gogh pintou intensamente por dez anos. Gênio da pintura. Vida atormentada. Passou a pintar mais intensamente após abandonar o sonho de ser pastor e missionário protestante. Quando comecei a estudar Van Gogh foi um baque na minha cabeça que se misturou com o episódio do suicídio da minha irmã. Essas duas obras abaixo são muito interessantes, pois o tema e a forma são idênticos. Mudam a cor e maneira de expressar através delas o que se passava no coração e na mente do artista.

A mais provável versão da morte dele é que tenha cometido suicídio. Recentemente, surgiu uma versão de que recebera um tiro numa luta com dois rapazes. De qualquer forma, passou os últimos momentos em paz e conformado com o fato de que estava morrendo. O que demonstra alívio com o fim a da vida. Pouco antes de morrer, disse ao Irmão irmão recusando-se a receber socorro médico : “A tristeza vai durar para sempre”. Morreu pouco tempo depois.

Há inúmeros estudos sobre a obra dele sob diversos pontos de vista (todos fundamentais e importantes). Van Gogh tinha fé, ele cria em Jesus. Sua obra tem diversas referências bíblicas, muitas ignoradas por vários estudiosos. Eu vejo nelas a mão de Deus. Há uma mensagem a ser revelada na obra de Van Gogh que vai além dos olhos naturais. Muito ele nos deixou entre essas duas imagens tão parecidas e separadas pelo tempo que durou sua fase mais criativa e sofrida. Aos protestantes de hoje, na minha opinião, uma clara mensagem que aos poucos temos abordado e falando dela por aqui. É preciso dizer de forma criativa e artística que a tristeza não dura para sempre. Apesar de todas as circunstâncias demonstrarem o contrário e o medo, a dor e angústia persistirem.


.... o choro pode durar uma noite,
mas a alegria vem pela manhã.
Salmos 30:5

Não há arte sem amor e sem empatia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

No 31 de Outubro, ao lembrar a Reforma de Lutero, O Grito de Edvard Munch.





Por Edvard Munch - Google Art Project, Domínio público,  https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=37624942


Na última sexta-feira, dia 31 de outubro, os protestantes mais uma vez lembram o ato de Lutero que inaugurou a Reforma que mudou o cristianismo no mundo.

Em 2017, nos 500 anos do anuncio das 95 teses de Lutero, dei uma Palestra na Escola de Museologia da UNIRIO acerca da influência da Reforma na cultura ocidental.

Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Havia muito pouco tempo em que eu iniciara os estudos sobre esse tema e estava diante de um público majoritariamente ateu e que analisa a arte eminentemente do ponto de vista científico, o que é natural do ambiente acadêmico.

Ao se Falar de arte e cristianismo no meio acadêmico geralmente são lembradas as contribuições de mestres ligados à Igreja Católica até o renascimento e o barroco,  a iconoclastia  protestante  e a aproximação de artistas e burgueses em países reformados. Esse é o censo comum, exceto nos cursos ligados à cultura, onde o tema merece atenção maior, ainda que esteja na periferia do interesse acadêmico.

A partir daí,  o que se apresenta de maneira muito consolidada é a convicção do descolamento de fé e arte. No século 19, predominou entre intelectuais e na academia um esforço para que esse descolamento fosse irreversível e definitivo.   Fruto de um processo iniciado no Renascimento, acentuado no Iluminismo e em muito alimentado por erros das Igrejas ao longo dos séculos anteriores que diziam muito sobre o que essas instituições faziam e muito pouco sobre o que Jesus ensinou. O que ainda pode-se perceber  é a referência de rituais e símbolos de religiões orientais atuais ou de povos antigos nas representações artísticas de autores ocidentais contemporâneos. Algumas vezes com certa reverência,  mas via de regra sem nenhuma relação de fé.   

O Final do século XIX anunciou um novo século em que as religiões perderiam muito espaço, principalmente na Europa.  Com isso, a razão e a ciência seriam os caminhos naturais e obrigatórios para qualquer análise.  Em pouco tempo, o mundo passou a conviver com o anúncio feito Friedrich Nietzsche de que Deus estava morto, com Freud tendo colocado as religiões judaico-cristãs na base dos complexos e traumas da humanidade e o marxismo tendo eleito as religiões como inimigas da classe operária. Ou seja, a filosofia, a psicanálise e a sociologia tinham colocado no campo das piores coisas da humanidade a fé cristã.

Voltando à minha palestra em 2017, apesar de estar entre muitos colegas queridos, o ambiente não era muito animador. Pra piorar, o meio cultural brasileiro havia sido sacudido pela oposição de igrejas à exposição Queermuseu: Cartografia da Diferença na Arte Brasileira, sob a acusação da mostra ser um incentivo à pedofilia, zoofilia e blasfêmia.

O formato proposto para a palestra não permitia uma tempo muito grande para apresentação. Preparei um material, produzi um vídeo com cenas do filme sobre a vida de  Lutero e fui para Universidade, onde dividiria a fala com um colega do Museu onde trabalho.

Eu estava apreensivo e  me sentia inseguro, mas a primeira parte da apresentação fluiu bem. No entanto, na medida em que eu ia falando e tentando seguir um roteiro o mais laico possível, olhava para a plateia, percebia as feições das pessoas e as ideias me fugiam ao senso da razão. Falavam mais forte em mim as motivações subjetivas da fé.  

Como dizer a eles o que eu acho que Deus fez e tem a fazer no campo das artes, sem gerar um ambiente hostil? Os argumentos fugiam da minha mente e a minha vontade era dizer um monte de coisas que não saíam. Terminei a apresentação praticamente lendo o que eu projetava, sem conseguir desenvolver nada além daquilo.

Não foi dos meus melhores momentos em público, mas acho que o principal objetivo que eu traçara havia sido alcançado. Eu queria dar o primeiro passo  e dei e fazer esse debate aparecer na Universidade em que estudei.



A Palestra na UNRIO em 2017. 

Transcorridos três anos desde a Palestra, eu entendo melhor o que aconteceu naquele dia. Eu comecei meus estudos buscando as influências da Reforma na Cultura e me deparei com o espaço em que Deus havia sido tirado de cena e eu tentava mostrar onde ele estava. Fazia um esforço enorme para buscar justificativas racionais, históricas e científicos para algo que é sobrenatural e inexplicável muitas das vezes.  

Evidentemente, é preciso estudar e buscar as causas desse afastamento e trazer ao debate as consequências da Reforma para a Cultura. No entanto, justamente no último dia 31 de outubro fui tocado profundamente  ao ler um texto enquanto estudava a vida do artista expressionista norueguês Edvard Munch – um  dos gênios da pintura universal, nascido e criado em família protestante  e cuja obra reflete as angústias humanas entre séculos XIX e XX.    

O texto é de Paul Tillich, teólogo protestante e Filósofo da Religião, e está no seu livro – A Coragem de Ser. Ele diz que no final da Antiguidade, as pessoas estavam tomadas pela ansiedade da morte pela fome, doenças e guerras. No final da Idade Média, após anos de opressão religiosa, a ansiedade das pessoas era baseada na culpa. Em meados do século XX, segundo Tillich as pessoas estavam espiritualmente ansiosas pela falta de sentido em suas existências.

O Teólogo talvez não imaginasse em que condições a humanidade chegaria aos anos 20 do século XXI. Depressão, psicopatias graves, suicídios, incertezas, desigualdades, violência, fome, miséria, guerras e intolerância tomam conta da vida das pessoas, sem que elas consigam identificar uma razão para suas existências.

O homem não venceu a morte. A fome, a guerra e a miséria não param de crescer. O homem não perdeu o sentimento de culpa e não conseguiu encontrar nenhuma resposta para sua existência nas soluções que ele criou ao “matar o Deus espiritual” e ter levantado um altar para razão.

Revejo biografias de artistas desde o final do século XIX perdidos em suas angústias. Muitos que ultrapassaram todos os limites do sofrimento existencial e físico só tiveram reconhecimento muito depois de sua morte. As análises desse sofrimento passaram pelas reflexões da Indústria Cultural, pelo complexo mundo da psicanálise e pela  teoria da história da arte.  Todas indispensáveis.  Mas muito pouco, ou quase nada sobre a alma desses jovens artistas. Muitos buscaram a metafísica, religiões de outras culturas e  drogas, como se o Deus Cristão lhes fosse proibido. Buscá-lo era quase uma afronta à arte.

Ao opinar sobre um possível retorno da relação arte e fé (especialmente a fé cristã), Theodor Adorno, filósofo da respeitada Escola de Frankfurt, rechaçou e essa hipótese de maneira enfática no artigo “Teses sobre religião e arte”.  Sua posição, mais que uma constatação, estava envolta numa torcida para que isso nunca mais pudesse ocorrer.

Este é um tema que não se esgotou está colocado diante dos artistas e estudiosos da arte que confessam a fé cristã. Creio que fé, Cristo e arte ainda terão muito a dizer aos corações inquietos desse século.




Referências:

ADORNO, Theodor. Teses sobre Religião e Arte. Marxists, 2018. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/adorno/ano/mes/teses.htm>. Acesso em 02/11/2020

TILLICH, Paul.A coragem de Ser. São Paulo: Paz e Terra, 1976.

sábado, 24 de outubro de 2020

Ainda Van Gogh - suas obras a partir de uma cosmovisão cristã




Van Gogh tem sido uma das principais inspirações do nosso Blog. Vejo na obra dele evidências de que Deus usou a vida desse gênio  para deixar um legado aos cristãos de hoje que produzam arte.

Conforme já dissemos anteriormente, Van Gogh tentou dedicar sua vida ao evangelho. Tentou ser Pastor e Missionário. Ao fracassar nessa tentativa, iniciou sua obra  artística de maneira mais sistemática e permanente. 

Ele não foi um artista que pintasse apenas temas religiosos, pelo contrário, ele pintou de tudo e nunca deixou de considerar que seu talento advinha de Deus. Nunca pintou o óbvio. Nunca deixou de treinar e buscar a excelência no que fazia. 

Neste sentido, eu  vejo duas missões para a Igreja atual diante do legado de Van Gogh: 

É preciso que novos artistas cristãos produzam cada vez mais e não se envergonhem da fé que possuem.  façam arte e deem Glória a Deus, seja através de sua arte, ou através de sua vida. Que o público veja através da sua arte a manifestação clara do amor e da Graça de Jesus. 

Além disso, considero que seja necessário olhar as obras de artistas protestante e  tentar compreendê-las a partir de perspectivas das motivações da fé de quem as fez. É preciso buscar e deixar fluir os dons da sabedoria e do conhecimento, mas também o do serviço e do encorajamento, sendo que todos eles partem do Espírito Santo de Deus.  

Nessa postagem,  trago exemplos de quadros de Van Gogh com elementos que podem nos apresentar um caminho para essa análise na relação dele com Deus.. 

Nos dois primeiros quadros, que fazem parte do início da produção dele, vemos um boi com jugo e sapatos recém tirados dos pés.. 

"Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração; porque meu jugo é suave e meu fardo é leve; e achareis descanso para as vossas almas" (Mateus 11.28-30)

Um momento chave da história do cristianismo foi quando Deus estava para estabelecer a aliança com  Moisés e também quando Bezalel e Oaliabe seriam alçados pelo próprio Senhor como homens das artes para realizarem a tenda do Senhor (Êxodo 31),  Chama-me  atenção a ordem dada a Moisés. 

"Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa". (Êxodo).

Feita essa considera~]ao inicial, quero estimular você a olhar, ou rever, essas obras de Van Gogh  a partir de uma nova perspectiva.  Vinha, Bíblia, ciprestes, trigo, corvos, girassóis, luz, sol, céu, oliveiras e lírios. Que raízes são essas que Van Gogh deixou? O que floresce mais de cem anos após a sua morte se interpretadas numa cosmo visão cristã?.

Para que lhe sirva de inspiração, leia a carta de Van Gogh  para seu irmão, em que ele relata um sermão ouvido numa Igreja em Amsterdam. O tema era "só" o Sermão da Montanha:

Amsterdã, 21 de outubro de 1877

 Meu caro Theo,

 "Estive no culto cedo esta manhã (Noorderkerk),  depois andei um pouco pela cidade, os canais são especialmente bonitos agora que as folhas das árvores têm as cores do outono, e depois fomos à igreja inglesa e ouvimos um som muito bom. Um sermão sobre 'Não pensar em sua vida”  ,  dizendo: O que devemos comer? Ou o que devemos beber? Ou com que roupa estaremos vestidos? Pois depois de todas essas coisas os gentios procuram: pois seu Pai Celestial sabe que você precisa de todas essas coisas. Mas busque primeiro o Reino de Deus e Sua justiça; e todas estas coisas serão acrescentadas a você: Não pense, pois, no dia seguinte, porque o dia seguinte pensará nas coisas de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal'. E ele também falou do precedente 'Eis as aves do céu'  e considera os lírios do campo. Havia uma congregação bastante grande e agradável. Gosto muito dessa igrejinha, e muitas pessoas lá provavelmente se lembram de coisas e lugares que não são familiares para mim também" 

Vincent Van Gogh


Por fim, uma dica. Conte quantos girassóis estão no vaso,  e quantas pessoas há no Terraço do Café, quantas estrelas há na Noite Estrela e quantas fontes de luz há na Noite Estrelada sobre o Ródono.



 










































 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Recados vindos do céu. O Senhor e a arte de nos amar e nos surpreender.







 Essa publicação no Instagram do nosso Blog mostra a caixa que acabo de receber com o material hospitalar usado mensalmente pelo meu filho. A vida dele é um milagre e alguém fez esse pequeno desenho na caixa  que encheu meu coração de emoção e gratidão. Deus usa os meios que julga apropriado para nos lembrar de onde vem o nosso socorro e que Ele é fonte inesgotável de graça e amor.  

Jesus nos ama. Os traços do desenho são simples e cheios de amor e expressam a arte que flui do espírito santo, e alcança os olhos e alma de quem a recebe. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Glorificando a Deus no núcleo educativo do Museu Nacional de Belas Artes

 

“Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas.” 1 Pedro 4:10



Alegoria às Artes, de Léon Pallière/MNBA IBRAM


Quando iniciei meu estágio no setor educativo do Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, não imaginava como poderia glorificar a Deus com o meu trabalho em meio às belas artes. Na época não fazia ideia da existência do conceito de Cosmovisão Cristã e não sabia como as artes e a minha fé teriam algo em comum. Ao longo do estágio surgiu o questionamento: artes e a fé cristã teriam algo em comum? Será que no núcleo educativo eu poderia fazer algo para Deus?

  

As questões sobre fé e artes estavam latentes e eu não sabia o que fazer até que um curso de filosofia cristã abriu a minha mente para o conceito de Cosmovisão Cristã. Este conceito se refere à visão de mundo baseada no cristianismo, ou seja, tudo o que vejo, escuto, sinto, faço, penso, ajo deve estar carregada de Cristo em todas as esferas da vida, que até então eu vivia uma realidade totalmente dualista.  Esse era o motivo de não conseguir enxergar a glória de Deus nas atividades exercidas no setor educativo do museu.

 

 Um ponto de partida seria examinar minha relação com Deus e enxergar Sua soberania em todas as áreas da vida. O Salmo 103:19 ACF diz que “O Senhor tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo.” Sendo Ele dominador de todas as coisas que existem as belas artes seriam incluídas nessa situação.

 

 Cada manifestação artística seja qual for, desde um simples traçado na tela até as grandes arquiteturas carregam consigo a glória e a soberania de Deus pois ele como O artista criou os céus, a Terra e tudo o que nela há (Gênesis 1 e 2), ainda dotou o ser humano com tamanha capacidade de criação, habilidade e beleza. As expressões artísticas retratam o belo e este é oriundo do Criador.

 

 Em segundo lugar, como o núcleo educativo poderia glorificar a Deus? O apóstolo Pedro nos dá uma lição importante em sua carta dizendo “Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas.” 1 Pedro 4:10 ACF. Ora se Deus é soberano sobre todas as coisas e me deu a oportunidade de estar em um núcleo educativo de um museu de belas artes, a primeira palavra que devo considerar é “serviço” assim como o apóstolo Paulo escreveu em sua carta aos Gálatas 5:13 “servi-vos uns aos outros pelo amor.” Servindo com alegria estarei assim apresentando a Graça de Deus em suas diversas maneiras, como por exemplo, estudando sobre as obras para apresentar uma mediação melhor, aprendendo a ouvir as pessoas com mais atenção e disposição, propondo e construindo projetos que atendam os mais diferentes públicos promovendo maior inclusão, acessibilidade e inserção da sociedade. Assim, a Graça de Deus seria manifesta, servindo as pessoas com amor e disposição a fim de que  Deus seja glorificado em todas as ações.

  

 Andressa Rodrigues Manso Esteves

 

Referências bibliográficas

 

Bíblia Sagrada. Traduzida por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. Edição Revista e Atualizada no Brasil, 3° ed. (Nova Almeida Atualizada). Barueri, SP : Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.